Crônica elaborada por Walter de Lima Filho
Hoje é 6 de abril de 2026. O sol da tarde começava a se deitar sobre o horizonte, pintando a varanda de um laranja profundo, quando o pequeno Davi puxou a manga da camisa do avô. Eles haviam acabado de chegar do culto de domingo, e uma dúvida, mastigada em silêncio durante todo o caminho, finalmente ganhou voz.
— Vovô, por que todo mundo na igreja come um pedacinho de pão e um gole de suco de uva? — o menino perguntou, franzindo as sobrancelhas. — É tão pouco… não mata a fome de ninguém. Por que chamam isso de “Santa Ceia” e dizem que é uma festa importante?
O velho professor de teologia sorriu, fechando o livro que descansava em seu colo. Ele olhou para as mãos enrugadas, depois para o neto, e fez um gesto para que ele se sentasse ao seu lado. Não meu filho, não é uma festa, mas um momento para pensar no trabalho espiritual, no nosso compromisso com Deus e na Eternidade. Não é festa, mas reflexão!
— Sabe, Davi — começou o avô, com aquela voz calma que parecia carregar séculos de histórias —, o que você viu não é um lanche, é um convite, um chamado. Jesus nos chamou para uma sala no andar de cima, há muito tempo, e aquele pão e aquele vinho são como chaves que abrem uma porta entre o Céu e a Terra.
O neto ouvia atentamente enquanto o avô explicava que Jesus não escolheu banquetes de reis, mas elementos simples.
— O pão que você viu, aquele pedacinho sem fermento, representa o Corpo de Cristo. No hebraico, a palavra para pão significa alimento, mas ela vem de uma raiz que significa “luta” ou “batalha”. Sabe por quê? Porque para ter o pão na mesa, o agricultor precisa suar, arar a terra e lutar. Na vida espiritual é igual: há uma batalha constante entre o que os nossos desejos querem e o que o Espírito de Deus deseja para nós. Comer aquele pão é dizer: “Senhor, eu aceito a Tua força para vencer as minhas lutas e quero que a Tua Palavra seja o meu sustento verdadeiro”.
Davi olhou para as próprias mãos, tentando imaginar a “batalha” de que o avô falava.
— E o suco, vovô? Por que o sangue de Jesus é comparado ao vinho?
— Ah, o cálice! — os olhos do avô brilharam. — O vinho, na tradição do povo de Deus, é o símbolo da alegria. Sabe quando você termina uma tarefa bem difícil e sente aquele alívio gostoso no peito? O vinho celebra o fim do trabalho. Jesus tomou o cálice e disse que era o Seu sangue, a Sua própria vida entregue para lavar os nossos erros. Ele estava garantindo uma aliança, um contrato de amor eterno.
O avô inclinou-se um pouco mais, baixando o tom de voz como quem conta um segredo precioso:
— O mais bonito, meu filho, é que Jesus nos deu a liberdade de escolher. A Graça de Deus é como o sol que brilha para todo mundo, mas só a terra que se deixa arar pelo lavrador é que produz fruto. Ele oferece o pão, mas é a nossa mão que precisa estender-se para pegá-lo.
— Então, quando a gente toma a Ceia, a gente está dizendo que aceita o presente? — perguntou o menino.
— Exatamente. Estamos anunciando que Ele morreu por nós, mas também que Ele vai voltar. Jesus disse que não beberia daquele vinho novamente até que estivéssemos todos juntos no Reino do Pai. É como se Ele estivesse nos dizendo: “Eu terminei a Minha missão e vou descansar com o Pai e agora, façam a parte de vocês, e quando terminarem, celebraremos com uma alegria que nunca mais vai ter fim”.
Davi ficou em silêncio por um tempo, observando o último raio de sol desaparecer. O pão e o suco já não pareciam tão “pouco” assim.
— Entendi, vovô. É uma festa de saudade e de espera ao mesmo tempo, né? O avô deu um beijo no topo da cabeça do neto e concluiu:
— É isso, pequeno. É o lugar onde a eternidade toca o nosso tempo. É a prova de que, mesmo em um mundo de lutas, o Mestre ainda nos espera à mesa, com o pão da vida e o vinho da eterna alegria. O pão e o vinho, àquele que confia e é fiel a Cristo, dão a ele o gosto da Eternidade.
Vamos orar: “Deus Eterno e Pai de Amor, Eu Te agradeço pela Tua Graça que brilha sobre mim, oferecendo-me o sustento que o mundo jamais poderia dar. Ao olhar para o pão, reconheço que a minha vida é uma batalha diária, mas confio que a Tua Palavra é o único alimento capaz de me fortalecer para vencer as inclinações da minha própria natureza e permanecer em Tua luz.
Ao lembrar do cálice, celebro a nova aliança selada pelo sangue de Cristo, que me garante perdão e alegria real. Que o Teu Espírito me conduza em liberdade, para que eu aceite diariamente o Teu convite e escolha permanecer firme em comunhão Contigo, anunciando a Tua vitória e a Tua vinda até que eu me assente à mesa da Eternidade no Reino do meu Pai. Em nome de Jesus, Amém!”
Que Deus abençoe a sua semana.
Seu amigo e irmão em Cristo, Walter.