Crônicas (17)

Navegando em tempos de crise

Crônica escrita por Walter de Lima Filho, tendo como base a meditação proferida na Comunidade Hebrom, de São Paulo, em 18 de Janeiro de 2026 – “Deus Pai, o Educador por Excelência” – segunda parte.

Hoje é 19 de Janeiro de 2026. A reunião da noite já havia terminado, quando o Sr. Joaquim entrou na sala pastoral. Seus olhos, fundos e cansados, carregavam o peso de quem não dormia há dias. Assim que se sentou, as palavras saíram como um desabafo represado: “Pastor, eu não aguento mais. Acho que Deus está me punindo. É problema na família, as contas não fecham, parece que tudo o que eu faço dá errado. O que foi que eu fiz para ser tão castigado assim?”

O velho pastor, com a calma de quem já viu muitas marés subirem e descerem, serviu um copo de água e abriu a Bíblia no Evangelho de Marcos, capítulo 4.

— Joaquim, meu amigo — começou o pastor, com voz suave — você não é o primeiro a pensar que o vento forte é um sinal de castigo. Mas olhe para este texto. Jesus disse aos discípulos: “Vamos para o outro lado do lago”. Eles não estavam fugindo de Deus; pelo contrário, estavam exatamente onde Jesus mandou. E, mesmo assim, a tempestade veio.

O pastor explicou que as crises da vida não são necessariamente sinais de que saímos da rota de Deus. Às vezes, elas são justamente o caminho para o nosso crescimento, quando nos mantemos humildes e pacientes ou perseverantes. “Não viva a vida no ‘oito ou oitenta’, Joaquim. Deus não está lá em cima com um raio na mão, esperando você errar para te golpear. As tempestades não são acidentes, mas salas de aula divinas”, afirmou.

Joaquim ouvia atento. O pastor continuou explicando que o Mar da Galileia, onde os discípulos estavam, é famoso por tempestades repentinas. Jesus sabia que o vento sopraria. Ele não foi pego de surpresa por um erro de logística. Ele permitiu o balanço do barco, para que a fé daqueles homens deixasse de ser apenas uma teoria ouvida na praia e se tornasse uma experiência viva, de confiança nas promessas de Deus, no meio das ondas.

— Sabe, Joaquim — disse o pastor, aproximando a cadeira — se soubéssemos o que Deus sabe, escolheríamos o mesmo caminho que Ele escolheu para nós. O fogo que o ourives usa não serve para destruir o ouro, mas para purificá-lo, removendo as sujeiras para que o brilho original apareça. Você não está sendo destruído; está sendo refinado.

O ponto central, segundo o pastor, é que muitas vezes focamos tanto no trajeto difícil que esquecemos o destino prometido. Jesus não disse aos discípulos: “Vamos tentar atravessar e ver se não morremos no caminho”. Ele disse: “Passemos para o outro lado”. Se o Mestre deu a ordem de partida e prometeu a chegada, o destino já estava garantido e pouco importava o tamanho das ondas.

— A nossa segurança não vem da ausência de problemas, mas da presença de Cristo no barco — continuou o velho pastor. — A fé não é acreditar que Deus fará o que você quer, mas confiar que Ele fará o que é certo. Deus não é como os homens, Ele não mente. Se Ele prometeu cuidar de você, Ele o fará.

O pastor aconselhou Joaquim a listar as promessas de Deus e lê-las em voz alta, sempre que o medo batesse à porta. Comparou essas promessas a uma âncora: ela não impede o barco de balançar, mas impede que ele seja arrastado para as rochas.

Ao final da conversa, o semblante de Joaquim estava mais leve. Ele entendeu que navegar em tempos de crise não é sinal de abandono, mas uma oportunidade de conhecer o SENHOR da tempestade mais de perto.

— Saia daqui hoje com esta certeza, Joaquim: Jesus conhece o vento e domina as águas. O seu barco está cheio de água agora, mas não tome o leme das mãos “Daquele” que cumpre o que diz. Você vai chegar ao outro lado.

Joaquim se levantou, apertou a mão do pastor e, pela primeira vez em semanas, sentiu que poderia, enfim, descansar.

Vamos orar: “Senhor Deus, eu Te agradeço porque a minha segurança não depende da ausência de ventos fortes, mas da Tua presença constante no meu barco. Peço que o Senhor acalme o meu coração e mude o meu pensamento, ajudando-me a entender que esta crise não é um castigo, mas uma oportunidade de amadurecimento e fé. Entrego o leme da minha vida em Tuas mãos, confiando que, se Tu deste a ordem de partida, a Tua fidelidade garantirá a minha chegada ao porto seguro, pois a Tua Palavra é a âncora que me mantém firme acima de qualquer tempestade. Em nome de Jesus, Amém!”

Meus irmãos em Cristo: A minha esperança é que não foquemos no tamanho das ondas, mas na presença de Jesus, Aquele que governa o mar bravio e o amansa. Lembremos que se Ele deu a ordem de partida e o nosso destino, a nossa chegada já está garantida, desde que sejamos humildes, confiantes e submissos a Ele. Uma semana abençoada a todos.

Seu amigo e irmão em Cristo, Walter.

Walter de Lima Filho