Homem construindo ba

O barco no quintal

Crônica elaborada por Walter de Lima Filho

A porta do escritório bateu com uma força desproporcional ao tamanho de Lucas, de apenas 15 anos. Ele jogou a mochila no sofá e desabou ao lado do pai, o pastor André, que revisava o sermão da semana.

— Pai, eu não aguento mais ser um “estranho” — desabafou Lucas, com os olhos marejados. — Por que eu tenho que ser tão diferente dos meus amigos da escola? Parece que eu vivo numa bolha.

André suspirou, fechando a Bíblia devagar. Ele conhecia aquele tom de voz. Era o som do cansaço da alma.

— O que aconteceu hoje, filho?

— Tentei falar de Jesus no intervalo. De novo, o Bruno e a turma dele começaram a rir, a fazer piada… disseram que eu sou “quadrado”, que vivo no passado. É humilhante, pai. Eu não quero mais falar de fé, de igreja e Bíblia com ninguém. Dá vontade de chutar o balde e ser igual a eles.
Lucas fez uma pausa, olhando para o teto, buscando coragem para a pergunta mais difícil:

— E quer saber? Se Deus é tão bom, por que parece que quem não crê é mais feliz? Eles se divertem, não têm regras, fazem o que querem. Enquanto isso, eu estou aqui, me segurando para ser “prudente”, como dizem na igreja. Pai, me perdoa, mas às vezes o Cristianismo parece uma prisão.

O pastor ouviu tudo em silêncio, sentindo a dor do filho. Não houve bronca, nem lição de moral imediata. Apenas um olhar de compreensão. André sabia que ser íntegro num mundo corrompido é um ato de resistência, e que isso gera exaustão.

— Lucas, vem cá — disse o pai, caminhando até a janela que dava para o quintal. — Imagine que a gente decidisse construir um barco gigante bem ali, no meio da grama. Sem rio, sem mar por perto. O que os vizinhos diriam?

Lucas, ainda carrancudo, disse: — Diriam que ficamos loucos. Iam rir da gente todo dia.

— Exatamente. Foi assim com Noé. O texto que eu estava estudando hoje (Gênesis 6) conta que o mundo dele estava “de pernas para o ar”. A maldade era o “novo normal”. Violência, pecados, egoísmo, avareza, ninguém se importava com Deus. Era o caos moral.

André colocou a mão no ombro do filho. — E no meio daquele caos, Noé decidiu fazer algo bizarro aos olhos humanos: ele olhou para cima. Ele buscou a Deus e, em vez de um juiz raivoso, ele encontrou graça. Encontrou favor e aprovação. Sabe, Noé não era um super-herói perfeito. Ele era um homem que, cansado de lutar sozinho contra a maré de perversidade, buscou no SENHOR a força para não ser engolido pela sociedade da sua época.

— Mas e a “prisão” das regras? — questionou Lucas.

— O barco de Noé parecia ridículo sob o Sol, filho. Mas quando as trevas e as águas do Dilúvio chegaram, aquele barco não foi uma prisão, foi o único refúgio. Foi a ponte que preservou a vida dele e da nossa família através da história. Noé honrou a fé que aprendeu com seus antepassados e manteve a chama acesa, quando todos a apagaram.

André olhou nos olhos de Lucas com ternura e firmeza.

— A sua integridade hoje, na escola, é o seu barco. Pode parecer estranho ou diferente para eles agora e isso pode gerar zombaria. Mas a fé que você recebeu não serve para te prender, e sim para te dar um propósito inabalável. O “combustível” da graça de Deus te capacita a fazer o que é certo, mesmo quando os resultados não são imediatos ou confortáveis. Não inveje a “felicidade” de quem está afundando no caos espiritual e moral. Escolha remar contra a correnteza, confiando que o Criador conduz o leme. A integridade traz uma paz que vale qualquer sacrifício. E, no final, filho, é essa fé que nos leva ao destino maravilhoso que Ele planejou.

Lucas olhou para a Bíblia sobre a mesa, depois para o pai. O peso em seus ombros parecia um pouco mais leve. Ele ainda seria o “diferente”, mas agora entendia que estava apenas construindo o seu refúgio.

Meu querido irmão e irmã em Cristo, não troque a segurança da sua fé em Cristo, representado pela arca de Noé no passado, pela ilusão de quem já está naufragando; ser fiel pode parecer estranho hoje, mas é o que mantém e o manterá de pé amanhã.

Vamos orar:

“SENHOR, eu me coloco diante da Tua presença neste momento, buscando a mesma graça que Noé encontrou em Seus olhos. Reconheço que o mundo ao meu redor muitas vezes tenta me desviar dos Teus caminhos, mas eu escolho olhar para cima e firmar minha alma na Tua verdade.

Dá-me, ó Deus, a força necessária para resistir ao desânimo e a coragem para ser fiel, mesmo quando eu me sentir sozinho ou incompreendido. Que a Tua paz guarde o meu coração e que a minha vida seja um reflexo do Teu Reino. Eu confio na Tua direção e descanso, na esperança eterna de que só a Tua Palavra me oferece. Em nome de Jesus, Amém!”

Que Deus abençoe grandemente a sua semana.

Seu amigo e irmão em Cristo, Walter.

Walter de Lima Filho