Crônica elaborada por Walter de Lima Filho
Já parou para pensar na estranha mania que a gente tem de tentar ser de ferro? Vivemos num país onde o sucesso é medido pelo brilho exterior, pela resistência inabalável e por essa performance constante, quase inumana. No Brasil de hoje, ser “forte” virou um mantra e, muitas vezes, confundido com não ter fraquezas, não errar e nunca demonstrar cansaço. Só que, quando olhamos para a nossa estrutura, o Criador nos dá um diagnóstico bem diferente: somos pó!
Essa ideia de “ser de ferro” é o berço de uma das maiores ciladas da nossa vida espiritual: a autocobrança desenfreada. A gente se olha no espelho e cobra de si mesmo uma perfeição que nem os heróis da fé tiveram. Queremos ser o Moisés que não se irrita, a Míriam que nunca sente inveja ou o Pedro que nunca treme diante do medo. Mas, ao negar nossa natureza de barro, acabamos ignorando a beleza do processo do Oleiro, o nosso Deus.
Como um cristão, eu entendo que a nossa salvação e o nosso crescimento não são um contrato de performance, mas um relacionamento de dependência. Quando o salmista diz que Deus lembra que somos pó, ele não está nos humilhando, mas está nos dando um alívio imenso. É exatamente na nossa limitação — nesse barro que racha com facilidade — que o poder de Deus entra. Deus não precisa de super-homens ou mulheres perfeitas. Ele precisa de pessoas reais que aceitem ser educadas e moldadas.
O problema é que, na nossa cultura, fomos condicionados a achar que errar é o fim da linha. O resultado? Uma ansiedade que paralisa, um perfeccionismo que afasta os irmãos e uma vida que, em vez de refletir a Graça, reflete o peso de carregar o mundo nas costas. Se você se sente assim, saiba que essa “pressão de ferro” não vem de Deus. Ele não quer cópias de outros cristãos, mas Deus quer a sua vida com todas as arestas que precisam ser polidas, no convívio diário com o próximo.
A vida cristã é uma caminhada de bastidores, não um palco de exibição. O crescimento maduro que tanto buscamos não se conquista pulando etapas, como se estivéssemos num fast-food de espiritualidade. Ele acontece na paciência, no perdão oferecido a quem nos irrita e na humildade de reconhecer: “SENHOR, hoje eu fraquejei, mas Tu és o meu Oleiro – molda-me de novo!”.
Não tente ser inquebrável. O ferro, quando bate, quebra ou racha. O barro, quando está nas mãos do Oleiro, pode ser amassado e refeito. É nessa restauração diária que nos tornamos mais parecidos com Cristo. Em vez de se cobrar tanto para ser o “cristão perfeito”, permita-se ser o filho amado que, mesmo sendo pó, tem o privilégio de ser carregado nos braços de um Pai que conhece cada limite seu. A beleza da fé não está na nossa força, mas na Graça que nos sustenta quando, finalmente, decidimos parar de tentar ser de ferro e aceitamos ser, com orgulho, o barro precioso que Deus decidiu moldar.
Deus abençoe sua vida e todos os seus.
Seu amigo e irmão em Cristo, Walter!