Crônica elaborada por Walter de Lima Filho
Hoje é 13 de abril de 2026. A noite estava calma, mas o silêncio no alpendre parecia pesado. Lucas, meu filho, observava o horizonte sem dizer uma palavra, até que soltou um suspiro que veio do fundo da alma. “Pai”, ele começou, com a voz embargada: “Eu não entendo. Eu vou às reuniões, canto os hinos, ouço as pregações de domingo, mas… parece que minha vida é um campo seco. Sinto um vazio, como se estivesse apenas cumprindo tabela no Reino de Deus.”
Pousei a caneca de café e olhei para ele com todo o carinho que um pai pode oferecer. Eu sabia exatamente do que ele estava falando. No mundo de hoje, estamos cercados de fios e sinais de internet, mas o coração humano nunca esteve tão isolado.
“Lucas, meu filho”, respondi suavemente, “você sabia que, lá no começo, no Éden, Deus olhou para tudo o que tinha feito e disse que era bom? Mas aí Ele fez uma pausa. Em Gênesis 2:18, o Criador declarou algo que muda tudo: ‘Não é bom que o homem viva sozinho’. Sabe, a sua solidão não é um defeito de fabricação. É, na verdade, um ‘vazio planejado’ por Deus, para nos levar até o outro e até Ele.”
Ele me olhou, confuso. “Mas eu estou sempre rodeado de gente na igreja, pai.”
“Estar no meio da multidão não é o mesmo que estar conectado, filho. Nas Escrituras, a palavra para esse ‘estar só’, significa viver em isolamento existencial. Deus viu que Adão tinha tudo — frutas, animais, a beleza e a pureza do próprio jardim — mas lhe faltava algo. Ele precisava de alguém, uma ajuda idônea, honesta e verdadeira. Isso não significa alguém inferior, mas alguém que se coloca ‘de frente’, como um espelho. Alguém que olhasse nos seus olhos e o ajudasse a ser quem Deus planejou.”
Cheguei mais perto e continuei: “A vida cristã não acontece apenas entre você e o banco da igreja. Ela floresce quando você decide ser uma ‘ponte viva’, entre a Eternidade e a Terra, entre Deus e os homens. Somos como as teclas de um piano: sozinhos, produzimos apenas notas, mas juntos, formamos um acorde harmonioso. Se você se sente infrutífero, talvez seja porque está vivendo de modo isolado, só para si, em vez de ser o auxílio de Deus para alguém.”
Lembrei a ele sobre Jesus. “Veja o Mestre, Lucas. Ele não apenas entrou em sinagogas e no Templo. Ele foi ao encontro daqueles que a sociedade desprezava como Mateus e Zaqueu, coletores de impostos, conversou com a mulher samaritana à beira do poço de Jacó, tocou nos leprosos e os curou. Jesus, cheio com a Graça divina, criou conexões onde só havia exclusão. Ele nos ensinou que o amor exige a liberdade de escolher caminhar junto, de ajudar o irmão a carregar o seu fardo, para que a nossa própria carga fique leve.”
Lucas ouvia atentamente, enquanto seus olhos começaram a marejar. A vida do Alto estava voltando e o seu semblante começou a mudar.
“Filho, abandone o isolamento egoísta. A comunhão com os irmãos é o que afia o nosso caráter, assim como o ferro afia o próprio ferro. Não tema os atritos do convívio, pois são eles que retiram nossas impurezas. Quando você se dispõe a ajudar alguém a se conectar com Deus, a sua própria alma começa a transbordar. Você foi chamado para ser sal e luz, e o sal só dá sabor quando se mistura, nunca quando fica guardado no saleiro.”
Por fim, eu o abracei, sentindo que aquela conversa era o início de um novo desafio para ele. Deus nos criou para estarmos mutuamente conectados e quando, pelo bem do Reino de Deus, abraçamos e auxiliamos o próximo, damos a ele o mesmo abraço e o auxílio que recebemos do Criador. Não espere recompensas neste mundo, mas viva desse modo e a sua vida se encherá da alegria de Deus, que o recompensará na Eternidade.
Eu, seu amigo e irmão Walter, desejo uma semana abençoada tanto a você como à sua família.