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O chão da vida e o espelho da alma

Crônica elaborada por Walter de Lima Filho
 
Às vezes, a gente olha no espelho e enxerga uma imagem que construímos na nossa própria cabeça. É um perigo danado. A gente se acha sábio, forte, espiritualmente maduro, mas, na primeira fechada no trânsito, ou na primeira discussão na mesa da cozinha, aquela casca bonita quebra. Olhando para a nossa cultura brasileira, percebemos como somos um povo caloroso, religioso e cheio de fé, mas que também lida diariamente com o fantasma do orgulho, das aparências e da pressa. Queremos parecer prontos. Queremos o topo. Mas o Criador nos convida a olhar para baixo, para o chão da realidade.
 
Conforme a meditação do domingo passado, pensando no texto de Jeremias e acrescentando seis versículos da segunda carta de Pedro, ficou muito claro que Deus não está interessado em um currículo cheio de teorias religiosas. Conhecer a Deus não é estudar como para passar num teste escolar ou acumular informações na mente, a fim de se sentir superior aos outros. Quando a teologia vira só teoria, ela adoece a alma e afasta as pessoas. O homem que se acha o dono da verdade acaba machucando quem só precisava de um bocado de atenção e acolhimento.
 
Como seres humanos, fomos criados com uma dignidade profunda e com a liberdade de responder ao chamado de Deus. Ele derrama a Sua graça sobre nós e nos capacita, mas a caminhada depende do nosso empenho diário, da nossa resposta voluntária. É um relacionamento de cooperação. Toda a força para vencer o egoísmo e o orgulho vem Dele, mas somos nós que precisamos dar o passo, decidir cultivar as virtudes e sintonizar o nosso coração com o Dele.
 
E como isso acontece na prática do dia a dia brasileiro? Acontece quando a nossa fé se desdobra em atitudes concretas. Pedro faz uma lista fantástica que funciona como um degrau após o outro. Ele diz que precisamos juntar à nossa fé a bondade no agir. E, com isso, buscar a sabedoria para fazer o que é certo, aprender a controlar nossos impulsos e desejos, ter paciência para aguentar as tempestades da vida, manter o respeito profundo pelo sagrado, e transbordar isso em amizade verdadeira e amor que aceita e perdoa.
 
Não dá para saltar etapas. Não existe mágica ou receita rápida de autoajuda que mude o coração de dentro para fora, sem esforço e sem entrega. Também não adianta esperar um destino de braços cruzados, achando que tudo já está rigidamente determinado, ou cair na ilusão de que as coisas vão se resolver sozinhas por um pensamento positivo vazio. A transformação exige paciência, cuidado e o reconhecimento sincero da nossa própria pobreza de alma.
 
O verdadeiro entendimento de Deus ganha vida no trato com o vizinho, na generosidade com quem tem menos, na capacidade de ouvir sem condenar. Quando estendemos a mão e usamos os recursos que recebemos para abençoar o próximo, começamos a participar da própria bondade divina. É aí que a nossa história é reconstruída. Paramos de viver de ilusões sobre nós mesmos e passamos a frutificar de verdade, espalhando a Graça, a Verdade divina e o amor de Cristo no mundo real. Então, o que Deus pediu a Abraão, quando disse: “Você será uma bênção para os outros”, nos trará grande sentido e propósito eterno de vida.
 
Que Deus, por meio de Jesus, abençoe sua vida e toda a sua família.

Seu amigo e irmão em Cristo, Walter.

Walter de Lima Filho